A crise de memória RAM que está a abalar o mercado tecnológico não dá sinais de abrandar antes de 2028, e as consolas da próxima geração vão pagar essa fatura. No caso da PlayStation 6, os valores que circulam agora apontam para um cenário que poucos jogadores queriam ver, e têm por base custo de fabrico real.
BOM a Subir, Preço Final a Seguir
O leaker KeplerL2, uma das fontes mais citadas em hardware de consolas, atualizou as suas estimativas para o custo de materiais (BOM) da PS6: o valor passou de 760 para cerca de 960 dólares. Para quem não está familiarizado com a lógica de pricing de consolas, o BOM é o custo dos componentes antes de qualquer margem, embalagem, distribuição ou suporte. A Sony tem historicamente vendido hardware a perda, especialmente no lançamento, subsidiando o preço ao consumidor com a receita de jogos e serviços. O problema é que quando o BOM cresce 200 dólares, absorver essa diferença torna-se cada vez mais difícil.
A projeção atual coloca a PS6 Digital Edition entre os 850 e os 899 dólares no mercado norte-americano. Quem quiser a versão com leitor de discos poderá pagar até 950 dólares.
O CEO da Sony Disse Quase Tudo, Sem Dizer Nada
Hideaki Nishino, CEO da Sony Interactive Entertainment, foi questionado sobre estratégia de pricing numa sessão de Q&A após uma reunião oficial de Gaming & Network Services. A resposta foi calculada, mas reveladora: declarou que, apesar dos recentes aumentos de preço, “as vendas estão a decorrer conforme planeado”, e que a Sony “não tenciona vender hardware com perdas significativas”.
Traduzindo: a era do subsídio agressivo pode estar a chegar ao fim. Em vez de fixar um preço de venda apelativo e absorver o prejuízo, a Sony parece disposta a deixar o mercado ditar o preço, comunicando o valor da consola como experiência em vez de especificação. Nishino sublinhou que “o valor reside na experiência, não no hardware em si”, distanciando a PS6 de comparações diretas com PC ou dispositivos de uso geral.
É um posicionamento inteligente. É também uma forma de preparar o consumidor para um número alto.
O Contexto Que Torna Tudo Mais Preocupante
A PS6 não está a ser construída num vácuo. A Micron confirmou recentemente que não prevê o fim, nem sequer um alívio significativo, da crise de DRAM antes de 2028, precisamente o ano em que a consola deverá chegar ao mercado. A Valve lançou o Steam Machine a um preço que gerou choque generalizado, em parte pelos mesmos motivos. A Microsoft aumentou os preços das Xbox Series X e S entre 100 e 150 dólares, empurrando a geração atual para os valores mais altos de sempre. E a PS5 já chegou aos 649,99 dólares nos EUA após os aumentos de abril.
O padrão é claro: a indústria está a redefinir o que é “normal” pagar por uma consola, e está a fazê-lo de forma gradual o suficiente para não provocar um colapso imediato de procura, mas rápida o suficiente para que, quando a PS6 chegar a 999 dólares, pareça quase inevitável.
Há ainda um efeito secundário que merece atenção: se a Sony reduzir o subsídio no hardware, a pressão para recuperar margem recai inevitavelmente nos jogos. Títulos a 80 ou 90 euros na PS6 não seriam uma surpresa, seriam uma consequência lógica.
O Que Esperar
A PlayStation 6 está confirmada para 2028. O preço oficial ainda não foi anunciado, mas as peças estão todas no tabuleiro: BOM acima dos 960 dólares, CEO a recusar perdas significativas, crise de RAM sem resolução à vista, e concorrência a normalizar preços mais altos. Se nada mudar até lá, e há poucas razões para acreditar que mudará, pagar mil euros por uma consola pode ser a nova realidade do gaming.








